Cannes encerra e vencedores brindam

Claquete Nº 3 – maio / 2026 – Ruy Jobim Neto
O romeno Christian Mungiu, que venceu a Palma de Ouro em 2007 com o filme “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, repete o feito em 2026, no Palais des Festivals, com o drama “Fjord”, estrelado pela norueguesa Renate Reinsve (de “Valor Sentimental”) e pelo americano Sebastian Stan (de “O Aprendiz”). O grande vencedor da 79ª edição do Festival de Cinema de Cannes retrata uma família cristã ultrarreligiosa e conservadora da Romênia que se muda para um país nórdico.
A partir daí, os personagens enfrentam embates culturais, além da intervenção das autoridades locais na criação de seus filhos. Um filme sobre a intolerância e a polarização nas sociedades atuais. A Neon já garantiu a distribuição do longa-metragem de Mungiu. Será Oscar?
Outros vencedores foram o diretor Pawel Pawlikowski, com “Fatherland”, um longa em preto-e-branco, com a atriz Sandra Huller no elenco. Sandra esteve recentemente em filmes que chegaram a concorrer ao Oscar, como o poderoso “Zona de Interesse” e “Anatomia de Uma Queda”.
O diretor polonês, expert em filmes sobre como a Segunda Guerra Mundial incidiu sobre seu país, também foi o diretor de obras como o belíssimo “Ida” e o filme seguinte, “Guerra Fria”. As atrizes Virginie Efira e Tao Okamoto dividiram o prêmio de Melhor Atriz pelo filme “All of a Sudden”, do diretor japonês Ryusuke Hamaguchi, do maravilhoso “Drive My Car”.
Brasileiros em Cannes 2026
Sim, tivemos brasileiros no Festival francês. A cineasta Elza Cataldo (diretora de “As Órfãs da Rainha” e “O Silêncio de Eva”) segue em sua filmografia sobre o universo feminino com dois filmes no Marché du Film, o importante mercado paralelo de cinema de Cannes.
Elza apresenta, acompanhada por Juliana Lira (da produtora Lira Filmes) e da atriz e cineasta portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp Fiction” e “Capitães de Abril”) a finalização do longa “Maria, a Rainha Louca”, estrelado por Maria de Medeiros – sobre a rainha portuguesa que reinou de 1777 a 1816 e morreu no Rio de Janeiro – e também trouxe para as mesas de rodadas de negócios a pré-produção de “O Passeio de Dendiara”, filme que tem coprodução entre Brasil e Portugal.
Por sua vez, o curta “Laser Cat” (Laser-Gato), do diretor paulistano Lucas Acher, venceu o prêmio principal da mostra paralela La Cinef, em Cannes 2026. Acher, de 30 anos, é estudante de cinema nos Estados Unidos e foi o único diretor brasileiro na seleção oficial em competição no festival e conquistou o júri presidido pela cineasta Carla Simón.
O filme, rodado em São Paulo, faz parte do projeto de doutorado em Cinema na NYU (Universidade de Nova York) e narra a jornada noturna de um adolescente pela capital paulista para tentar salvar um gato, numa história de realismo fantástico, humor e suspense. O prêmio de Cannes, além do prestígio, conferiu ao cineasta um aporte de 15 mil euros (perto de 83 mil reais).
Resenha: “A CRONOLOGIA DA ÁGUA”
Kristen Stewart apresentou ao mundo, na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2025, o seu primeiro longa como diretora, “A Cronologia da Água”, que chegou aos cinemas brasileiros em 2026. Estrelado pela corajosa e não menos talentosa atriz inglesa Imogen Poots (de “Frank & Lola” e “Meu Pai”), que entrega uma interpretação vertical e potente, até agora possivelmente a personagem mais poderosa de sua carreira, o filme vai muito fundo na alma de uma mulher jovem.
O longa conta a história real da escritora americana Lidia Yuknavich, baseado em seu livro homônimo, uma nadadora olímpica que usava a água como metáfora da liberdade que ela não tinha em casa, com os pais, uma vez que sofria abuso sexual do próprio pai desde a infância. Bebida, sexo, violência e tendência à autodestruição, esses foram os ingredientes que levaram a nadadora a migrar para a literatura como possibilidade para que não enlouquecesse.
Mas o que salta aos olhos (e ouvidos) do espectador é a montagem estridente de “A Cronologia da Água”, algo que lembra também a construção e a dinâmica do fabuloso primeiro filme da inglesa Charlotte Wells, “Aftersun”. A tensão é presente o tempo todo, lembra a mesma tensão presente em “Zona de Interesse”. Parece não haver saída para Lídia, papel de Imogen Poots, numa balança sem equilíbrio que vai do climão em casa, o pai violento e abusador ao apoio da irmã mais nova, interpretada por Thora Birch. No elenco, também está James Belushi.
No entanto, é impossível tirar os olhos dos olhos de Imogen Poots, ao longo de seus 128 minutos (mais de duas horas de duração). A atriz mergulha tão fundo em sua personagem que cada fio de seus cabelos louros está em desalinho, a respiração da atriz beira ao inevitável desequilíbrio, uma interpretação difícil de se encontrar no cinema contemporâneo, é coisa para atrizes corajosas.
Kristen Stewart, com seu primeiro filme, produzido pela Scott Free (de Ridley Scott), entre outros produtores, entrega uma obra-prima do cinema independente, um filme que ultrapassa os minutos durante os quais ele é projetado. A gente leva para casa, na mente e no coração, uma obra que faz imaginar o que virá pela frente, em sua filmografia. Esqueçam a saga Crepúsculo, meninos. A Bella cresceu, foi dirigida por cineastas como David Fincher, Olivier Assayas ou Pablo Larraín, entre outros e aprendeu muito, ela entendeu que cinema é experiência. Uma dádiva.
Para completar, veículos como The Hollywood Reporter, Rolling Stone ou a Time Magazine citaram o filme como obra magistral, de uma diretora que encontrou sua voz, entregando “A Cronologia da Água” como radical, contundente e honesto. E ousado. Muito ousado. Classificação indicativa: 18 anos. Puro suco de Kristen Stewart. Vale cada minuto. Pode se assistir ao filme na Netflix ou na Prime Video.
Próxima CLAQUETE, falaremos de “O Estrangeiro”, de François Ozon.
CLAQUETE batida.


Texto objetivo. De escrita clara e sem empolações com grande quantidade de conteúdo. Adorei. Já virei fã da Claquete.