“Dia D”, de Steven Spielberg – para acordar e ser ouvido

Por: Ruy Jobim Neto
A inglesa Emily Blunt já está sendo cotada para o Oscar de 2027 de Melhor Atriz pela personagem Margareth Fairchild, a protagonista, ao lado do também britânico Josh O’Connor, em “Dia D” (Disclosure Day) ou, em tradução livre, “O Dia da Revelação”, o mais recente filme lançado por Steven Spielberg. O filme, de 2h25 minutos de duração, trata de alienígenas ao ritmo de aventura, dois temas que são familiares ao cineasta e tem como trunfo o seu ritmo muito bem calibrado. “Dia D” está nos cinemas de todo o Brasil. E tem mensagem para ser transmitida.
Spielberg, alienígenas e aventura são praticamente sinônimos. O diretor americano já nos tinha presenteado com esses temas em 1977 com o maravilhoso “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, em 1982 com “E.T. – O Extraterrestre” e mesmo em obras como “Guerra dos Mundos” (em cima de obra de H. G. Wells) e, em certa medida, em “Inteligência Artificial”. Há uma pitada alienígena em cada um deles. Mas em “Dia D”, há outro tema a ser abordado. Um tema complementar. Aqui, são as crianças contactadas, também chamados de “passageiros”, que passaram por algum tipo de abdução com o trauma de memórias esquecidas.
Assim se desenha a trama de “Dia D”. Os personagens de Emily Blunt e Josh O’Connor precisam se encontrar, quase vinte anos depois de um trauma em comum, já que a estória se passa em 2026, 79 anos depois do incidente de Roswell, em 1947, quando um disco voador foi abatido nos Estados Unidos. Margareth (Blunt) é uma moça do tempo de uma estação de TV de Kansas City. Daniel (O’Connor) é um hacker no meio de uma aventura pessoal, onde divulgar certas informações é o mote de suas correrias ao lado da namorada Jane (Eve Hewson).
Esses dois personagens – a moça do tempo e o hacker – não se conhecem ainda, mas entre eles está Hugo (Colman Domingo), que precisa fazer com que os dois venham a se encontrar em dado momento e que trabalha numa empresa que detém segredos perigosos, comandada por um vilão, Noah Scanlon, interpretado pelo britânico Colin Firth (de “O Discurso do Rei”). Os segredos são o motivo pelo qual o filme existe, como faz a Arca da Aliança na primeira aventura de Indiana Jones, sendo aquilo que Alfred Hitchcock nos ensina, chamando de “MacGuffin”.
A perseguição, nesse novo longa, só encerra quando acaba e Spielberg conduz a plateia com maestria sem que possa sentir as mais de duas horas de duração do filme. “Dia D” é muito equilibrado, tem comédia no ponto certo, correria e perseguições de tirar o fôlego (há uma cena com um trem de fazer ficar sentado na ponta da poltrona e morder unhas), tem roteiro de David Koepp em cima de estória do próprio Spielberg e marca também o trigésimo filme do cineasta ao lado do maestro e compositor John Williams (que está com 94 anos de idade).
Só mesmo Steven Spielberg para tirar John Williams da aposentadoria, depois do fracasso do último e quinto filme Indiana Jones, produzido pela Disney. A trilha sonora de “Dia D” relembra em vários momentos os temas incidentais de aventura do compositor para os antigos seriados de Irwin Allen para a TV (“Terra de Gigantes” e “Túnel do Tempo”, isso sem falar em “Perdidos no Espaço”) quando ela dialoga com “Contatos Imediatos”, como no caso do tema criado para Margareth – as notas que evidenciam o contato com os alienígenas, lembrando as cinco notas criadas para a nave-mãe do filme de 1977. John Williams também rege a música.
E há ainda outro diálogo musical com o filme de 1977 – se em “Contatos”, a canção de “Pinocchio” da Disney, “When You Wish Upon a Star”, é entoada enquanto o personagem de Richard Dreyfuss se dirige à nave-mãe, aqui a canção utilizada é “Someday My Prince Will Come”, de “Branca de Neve”, o primeiro clássico também da Disney, de 1938, num momento-chave para Margareth, em “Dia D”. Portanto, um filme de Steven Spielberg cheio de camadas, referências e até autorreferências.
A personagem de Emily Blunt passa por aquilo que se chama de “rito de passagem”, pois Margareth começa o filme feito uma doidivanas que apresenta o tempo na TV, toda insegura e com vontade de ser âncora, de apresentar notícias sérias para o grande público. Daniel, por sua vez, luta de forma subversiva, contra o sistema, trazendo em suas mochilas uma série de informações que são nitroglicerina pura. Já a namorada dele, Jane (interpretada pela ótima e talentosa Eve Hewson) é a personagem que balança entre a fé e a vocação. A discussão é boa e o filme ainda anuncia, de certa forma, uma pacificação entre a TV e as redes sociais. Um filme repleto de simbolismos.
O tema que “Dia D” desenvolve, portanto, centra fogo no poder daqueles que detêm informações e naqueles que não as detêm. Para contar toda essa aventura sobre a Terra, Steven Spielberg elenca, além do compositor John Williams, a montadora Sarah Broshar, pupila do montador Michael Kahn (que montou todos os filmes do cineasta desde “Contatos Imediatos”, e aqui coproduz “Dia D”). Além disso, o filme conta com a direção de fotografia esplêndida de Janusz Kaminski, que acompanha Spielberg desde “A Lista de Schindler”, de 1993.
A fotografia do filme relembra “Contatos Imediatos” em várias cenas, como referência mesmo, dialogando com o filme de 1977. A condução do ritmo do de “Dia D”, como a estória se desenvolve, também dialoga com a primeira obra de ficção científica de Spielberg. No novo filme, há autorreferências a Indiana Jones, a “West Side Story”, “E.T.” e ao primeiro longa de cinema do cineasta, “Louca Escapada” (The Sugarland Express, de 1974), a primeira contribuição dele com John Williams. A filmografia de Spielberg é homenageada, ele mesmo estando aos 79 anos de idade (completa 80 anos em dezembro).
O ótimo Colman Domingo (Hugo) já foi visto em “Sing Sing”, está nas telas em “Michael” e faz um personagem fundamental, um elo dentro da trama de “Dia D”. Há particularmente uma cena no filme em que Hugo e Noah Scanlon (Colin Firth) numa discussão fundamental da estória, a cena que dá toda a lógica para a obra. O talentoso Josh O’Connor (que interpreta Daniel) foi o Príncipe Charles na série “The Crown”, fez filmes como “La Chimera”, de Alice Rohrwacher ou “Rivais”, em que contracena com Zendaya, agora ele finalmente trabalhando com Spielberg.
Mas é Emily Blunt o coração do filme, uma atriz com toda a sua capacidade artística, o seu talento e sua trajetória, entregando uma Margareth que cresce a olhos vistos diante do espectador. Margareth Fairchild (“fair child”, na tradução, a boa criança) tem em Emily uma composição digna de prêmios, como já estão anunciando os críticos de cinema neste meio de ano de 2026, colocando a inglesa ao lado de Inde Navarette (a Nikki de “Obsessão”) ou da espanhola Penélope Cruz, já vencedora do Oscar (por “Vicky Cristina Barcelona”) e que está no elenco da comédia dirigida e coestrelada por Olivia Wilde, “O Convite”. São interpretações femininas bacanas para caírem nas graças do público. E 2026 ainda nem acabou.
Claquete batida!
