Entre labirintos, memórias e absurdos

Por: Ruy Jobim Neto
A Claquete nº 5 apresenta três resenhas de Ruy Jobim Neto sobre grandes filmes de renomados cineastas
BACKROOMS: O LUGAR EM LUGAR NENHUM
Com produção da A24 americana, o longa “Backrooms”, que estreou nas salas brasileiras, está causando furor mundo afora. O filme, escrito e dirigido por Kane Parsons, um jovem cineasta de apenas 20 anos de idade e estrelado por nomes como o britânico Chiwetel Ejiofor (de “12 Anos de Escravidão”) e a norueguesa Renate Reinsve (de “A Pior Pessoa do Mundo” e “Valor Sentimental”), estabelece um jogo eletrizante com o espectador, mas também não veio para responder a quase nenhuma pergunta.
O público sai do cinema, vai comer pizza e fica tentando deduzir a lógica daquilo a que acabou de assistir. Clark (Ejiofor) é o gerente de uma loja de móveis, tem problemas com bebida e com sua própria família (que não aparece no filme) e tem como analista a personagem de Renate Reinsve. Um certo dia, ele consegue atravessar uma parede e então descobre um lugar paralelo totalmente distorcido e que pode existir apenas em sua mente. Quando ele busca convencer a analista da existência desse local, a complicação se faz presente. Até o momento em que a própria analista consegue acessar o mundo paralelo na loja de Clark.
Em termos de cinema, a câmera dirigida por Kane Parsons é extremamente dinâmica, com cenários estranhos e conduz com muita força a curiosidade dos personagens junto ao espectador. Os sons, os ambientes, as cores (em geral, o amarelo), os espaços, as esquisitices todas, tudo é descoberto em conjunto. Mas cada personagem tem a sua viagem pessoal dentro daquela situação. “Backrooms” te deixa com mais perguntas do que respostas.
As perguntas que são feitas ao longo do filme aparentemente não têm solução, mas é um mergulho fundo na alucinação coletiva. Ou particular. E o sucesso desse filme vem da internet. A A24 novaiorquina apostou em Kane Parsons devido aos curtas que o jovem cineasta postou em seu canal do YouTube, que explodiu em acessos e seguidores.
A partir daí, a produção de “Backrooms” ganhou cartão verde. As salas realmente enchem de espectadores, a A24 acertou em cheio com mais uma esquisitice. E é sempre bom assistir a atores como Renate Reinsve (em registro bem diferente do que já a vimos fazer e ela vem aí em “Fjord”, de Christian Mungiu), o sempre eficiente Chiwetel Ejiofor e Mark Duplass, em participação menor, ele que é ator, diretor, roteirista e vem do cinema independente americano. Nota 7.
ALMODÓVAR DE VOLTA ÀS CORES E DORES
Um filme dentro de um filme. Talvez seja essa a maneira mais rasa de descrever o mais novo Almodóvar, “Natal Amargo” (Amarga Navidad, de 2026) ou, ao menos, pode ser essa uma das várias camadas dessa estória. O fato é que se trata de um exemplar de Pedro Almodóvar em grande forma. E com várias camadas.
Trata-se de mais uma obra do cineasta espanhol ao lado do ator argentino Leonardo Sbaraglia (de filmes como “Relatos Selvagens” ou “Dor e Glória”, este último, do próprio Almodóvar), onde na tela existe um alter ego. Raúl (Sbaraglia) é um roteirista em crise de criatividade, está escrevendo uma estória e, de forma proposital, resolve inserir em seus personagens de ficção situações de pessoas que ele conhece em sua vida. Só que a estratégia é descoberta, cai por terra.
Nisso, há outros personagens na trama, como a sua assistente Monica, interpretada por Aitana Sanchez-Gijón (de filmes como “Caminhando nas Nuvens”), que investe contra Raúl numa cena de diálogos impressionantes, à mesa de um café.
Outras figuras que aparecem estão dentro da trama escrita por Raúl e que Almodóvar também transforma em cena – a personagem Patricia, de Victoria Luengo (de “El Ser Querido”) e a de Natalia (vivida por Milena Smit), com seus problemas pessoais localizados em cenários deslumbrantes – parte do filme é rodado nas ilhas Canárias, muito vulcânicas e exóticas.
Claro que Almodóvar perpassa seu filme pelas notas musicais de Alberto Iglesias, que tem acompanhado a filmografia do cineasta desde muitas décadas. Claro que Almodóvar presta homenagem a atrizes como a carismática Rossy de Palma (de sucessos dele como “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”).
E o que fica também guardado na memória, além dos diálogos cortantes, precisos, rápidos, muito almodovarianos, são aquelas cores – os azuis muito intensos, os contrastes entre os vermelhos e verdes e pontos azuis, tão ao estilo do cineasta. Vale a pena ver esse Almodóvar? Sempre vale. Um Almodóvar dos bons tempos, renovado. Nota 8.
O ESTRANGEIRO DE CAMUS, NA VISÃO DE OZON
No final dos anos sessenta, mais precisamente em 1967, Luchino Visconti dirigiu a sua versão em cores para a obra-prima de Albert Camus, “O Estrangeiro”, tendo diante das câmeras nada menos que a dupla Marcello Mastroianni e Anna Karina – simplesmente dois dos maiores astros do cinema europeu daquele período.
Ele já vinha de clássicos fellinianos como “La Dolce Vita” e “81/2” e ela, esposa do francês Jean-Luc Godard, já tinha feito filmes como “Cléo das 5 às 7”, de Agnès Varda ou “Alphaville” e “Pierrot Le Fou”, ambos de Godard. Em 2025, uma nova versão do livro de Camus surge, desta vez pelas lentes de François Ozon.
Ozon nos entrega o seu Meursault, o protagonista ou anti-herói de “O Estrangeiro” totalmente em preto-e-branco, mas não é qualquer fotografia em preto-e-branco. Trata-se de uma obra de arte o que o diretor de fotografia Manuel Dacosse presenteia os olhos do espectador. E a bela e eficiente música de Fatima Al Qadiri.
O casal principal, os franceses Benjamin Voisin (no papel de Meursault) e a belíssima Rebecca Marder (como Marie), é excelente. Ele mantém a indiferença até onde é possível (para não dar spoiler, fiquemos apenas com “preste atenção na cena com o padre, na cela”) e ela interpreta Marie com todo o peso de seu arco dramático, com graça, força e indiscutível carisma.
Mas sobre o que fala “O Estrangeiro”? Em 1942, ainda durante a Segunda Guerra, o escritor argelino Albert Camus traz ao mundo o seu livro, a sua obra-prima, absolutamente fundamental da literatura francesa do século XX, um dos pilares do existencialismo nas letras mundiais. Na trama, narrada em primeira pessoa, Meursault é um modesto funcionário francês que mora na Argélia.
O rapaz é um poço de indiferença e apatia, como é atestado durante o velório de sua mãe. Em seguida, ele reencontra a namorada Marie, cujo romance os conduz a um passeio no litoral, onde acontece um incidente e Meursault é preso. O julgamento do protagonista, quase movido por total absurdo, leva-o à pena de morte por um pretexto no mínimo absurdo.
“O Estrangeiro”, o filme, que também tem narração em primeira pessoa, ganha outros relevos e se resume numa obra-prima do cinema contemporâneo francês, feito por um dos mais produtivos cineastas europeus. François Ozon tem uma filmografia que inclui “A Piscina”, “Oito Mulheres”, “Jovem e Bela” e muitos outros, todos realizados não apenas com arte, mas com brutal competência. Arrisca-se dizer que “O Estrangeiro” seja ainda superior aos demais, sendo o melhor filme da carreira de Ozon. Enfim, o espectador se vê diante de uma obra de arte. Nota 10.
Claquete de resenhas batida!
