Claquete comemora o Dia do Cinema Brasileiro com revisita a obras que marcaram o cinema nacional

Por: Ruy Jobim Neto
DIA DO CINEMA BRASILEIRO, 19 DE JUNHO
Nesta última sexta-feira (19), comemorou-se a data em que o empresário italiano Afonso Segreto registrou as primeiras imagens da Baía da Guanabara, a bordo do navio “Brésil”, no ano de 1898, já na República Velha. Segreto trouxe da França uma câmera (chamada de cinematógrafo) e capturou em suas lentes as primeiras imagens filmadas feitas do território brasileiro.
Embora haja duas controvérsias – a primeira sendo a de que as primeiras filmagens em solo brasileiro tivessem acontecido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1897 e a segunda de que em 5 de novembro de 1896, tivesse sido inaugurada a primeira sala de exibição de cinema do Brasil -, a data de 19 de junho segue como sendo a fundadora do Cinema Brasileiro.
Para comemorar esse 19 de junho, a CLAQUETE, nesta edição, faz aqui a indicação de cinco obras do Cinema Brasileiro, de cineastas importantes, para ilustrar a nossa diversidade criativa nas telonas.
Lavoura Arcaica (2001 | Dir.: Luiz Fernando Carvalho)
Essa verdadeira obra-prima do Cinema Brasileiro tem um elenco estelar – a começar por ser o filme que despontou Simone Spoladore -, sendo encabeçado por Selton Mello, tendo ainda Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Caio Blat e Leonardo Medeiros. Trata-se da história de André (Selton Mello) que é resgatado de volta para o seio da família pelo irmão Pedro (Leonardo Medeiros), uma vez que o pai (Raul Cortez) tem um poder enorme sobre todos, a mãe (Juliana Carneiro da Cunha) devota um amor sufocante aos filhos e uma das irmãs, Ana (Simone Spoladore) seja o alvo do amor incestuoso de André. Um filho pródigo às avessas.
Tudo é maravilhoso nessa obra de quase três horas de duração, a começar pela direção de atores de Luiz Fernando Carvalho, em seu filme de estreia como diretor, uma vez que sob a batuta dele estiveram novelas como “Renascer” e minisséries como “Hoje é Dia de Maria”, “Capitu” e, principalmente, “Os Maias”, todas produzidas pela TV Globo. A música emocionante de Marco Antônio Guimarães (líder e criador do grupo Uakti), a exuberante direção de fotografia de Walter Carvalho e a montagem do próprio diretor envolvem a potente interpretação do elenco. O filme é baseado no livro magistral de Raduan Nassar, “Lavoura Arcaica”, de 1975. E Simone Spoladore ensaiou as duas danças de Ana um ano antes da produção efetivamente começar.
Desmundo (2002 | Dir.: Alain Fresnot)
O Brasil menino desponta das páginas do livro homônimo “Desmundo”, escrito por Ana Miranda para a tela do cinema pelas mãos competentes do inspirado Alain Fresnot, aqui com elenco encabeçado por Simone Spoladore, no papel da órfã portuguesa Oribela de Covilhã, além de Osmar Prado, Caco Ciocler, Berta Zemel, Cacá Rosset, Beatriz Segall, Olayr Coan, Os Parlapatões e muitos outros. O filme conta como Oribela e outras meninas, também órfãs, vêm para o Brasil dos anos 1570, para se casarem com portugueses estabelecidos em terras americanas, para diminuir a ascendência da língua e do gene indígena entre europeus. Detalhe: o filme é falado em português arcaico e legendado em português moderno. Um luxo.
“Desmundo” foi filmado em Ubatuba, no litoral norte paulista, onde foi construída uma vila cenográfica do século XVI, pela equipe dos diretores de arte Adrian Cooper e Chico Andrade. A trilha sonora foi assinada pelo maestro John Neschling (de “Os Maias”, da Globo), mas é na interpretação de Oribela que Simone Spoladore dá um show, mostrando a grande atriz que é, numa personagem de fragilidade imensa, enorme resiliência e ferocidade.
Sudoeste (2011 | Dir.: Eduardo Nunes)
Simone Spoladore (ela, de novo), Dira Paes, Mariana Lima e Léa Garcia, para enumerar alguns atores do elenco de um dos filmes mais únicos do Cinema Brasileiro – “Sudoeste” – com direção de Eduardo Nunes, cuja tela de projeção é uma faixa retangular, mostrando o filme num terço de imagem, em preto-e-branco espetacular de alto contraste. Com pouco mais de duas horas de duração, esse filme conta a vida inteira de uma personagem em apenas um dia, e tudo é diferente (no bom sentido) nessa produção, com cinematografia inspirada em padrões europeus, de cineastas como Béla Tarr e Andrei Tarkovski.
Orçado em apenas 1 milhão de reais, a produção parece ter custado bem mais, para quem assiste. Eduardo Nunes demorou 10 anos para concluir o filme, sendo que além de diretor, trabalhou na edição de som e corroteirista. Simone Spoladore é produtora executiva no filme, sendo também a protagonista. “Sudoeste” é uma obra diferente, com imagens impressionantes (de Mauro Pinheiro Jr. na direção de fotografia), com lançamento da Vitrine e foi exibido nos festivais de Gramado, Tessaloniki (Grécia), Havana (Cuba), Chicago (EUA) e em Roterdã, nos Países Baixos. Beleza e composição de imagens são um dos fortes ingredientes desse filme. Mas tudo funciona muito bem nessa obra única.
Bye, Bye, Brasil (1979 | Dir.: Cacá Diegues)
Quando Cacá Diegues filmava “Joana Francesa” em Alagoas, seu estado natal, com a musa da Nouvelle Vague, Jeanne Moreau, ele percebeu um Brasil que se transformava. Durante o regime cívico-militar, populações assistiam à televisão juntos, em aparelhos empoleirados e atados a postes e foi quando Diegues rabiscou a ideia de “Bye, Bye, Brasil”, cujo roteiro escreveu com Leopoldo Serran. Produzido pela LCB (Luís Carlos e Lucy Barreto), o filme é um clássico.
No filme, a Caravana Rólidei percorre cidadezinhas do interior do norte e do nordeste, fazendo os seus shows. No elenco, José Wilker (como Lorde Cigano), Betty Faria (Salomé), Fábio Jr. – em seu único filme – (como o sanfoneiro Ciço) e a esposa grávida Dasdô, interpretada por Zaíra Zambelli, prima do cineasta. A aventura road-movie tem ares de drama e comédia amarga e faz uma metáfora daquele Brasil em transformação que Diegues havia vislumbrado. A música tema, de Chico Buarque e Roberto Menescal, “Bye, Bye, Brasil”, dá o tom.
Inocência (1983 | Dir.: Walter Lima Jr.)
A primeira aparição de Fernanda Torres, aos 16 anos de idade, diante das câmeras de cinema, foi sob a direção de Walter Lima Jr., cineasta que foi assistente de direção de Gláuber Rocha em obras como “Deus e o Diabo Na Terra do Sol”. Baseado no romance homônimo de Visconde de Taunay, o filme é de uma beleza só, foi produzido pela família Barreto (Luiz Carlos e Lucy), tem direção de fotografia assinada por Pedro Farkas e música composta e executada por Wagner Tiso. “Inocência” é tido como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Ambientado no Brasil imperial, no século XIX, o filme se passa nas fazendas mais distantes do sertão de Mato Grosso, contando a história do médico Cirino (Edson Celulari), designado para tratar a menina Inocência (Fernanda Torres), que estava acometida de malária. Embora a jovem estivesse prometida a um rico fazendeiro da região, Inocência e Cirino se apaixonam, fazendo com que o pai dela (Sebastião Vasconcelos) se colocasse contra a relação. No elenco do filme, também estão Fernando Torres, Chica Xavier, Chico Diaz e outros.
Bastidores: essa coluna foi escrita durante a audição da trilha sonora de “Lavoura Arcaica”, por Marco Antônio Guimarães, para o filme de Luiz Fernando Carvalho.
Claquete batida!
