Ruy Jobim Neto homenageia Luís Carlos Barreto, revisita o clássico “A Dupla Vida de Véronique” e comenta a comédia “O Convite”, de Olivia Wilde.
A Claquete nº 10 presta homenagem ao produtor Luís Carlos Barreto, relembra seu legado no cinema brasileiro, revisita o clássico "A Dupla Vida de Véronique", de Kieslowski, e comenta a nova comédia dirigida por Olivia Wilde.

Por: Ruy Jobim Neto
Morre o produtor Luís Carlos Barreto, de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”
Um dos maiores nomes do Cinema Brasileiro, o produtor Luís Carlos Barreto (conhecido como “Barretão”), faleceu nesta quarta (22) aos 98 anos, no Rio de Janeiro, em virtude de uma infecção pulmonar severa, agravada por pneumonia. O cineasta foi o diretor de fotografia do clássico “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos e pai dos diretores Bruno Barreto (de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “O Que é Isso, Companheiro?”) e Fábio Barreto (de “O Quatrilho” e “Índia, a Filha do Sol”), filmes de enorme sucesso que ele produziu, para a LCB Produções.
Barretão foi uma das figuras determinantes do Cinema Brasileiro, atuando com enorme impacto na cadeia produtiva da filmografia nacional. Desde o Cinema Novo até a Retomada, Luís Carlos Barreto participou de forma decisiva, com filmes de grande relevância. O cineasta nasceu em Sobral, no Ceará, em 1928, mudou-se para o Rio de Janeiro onde foi fotógrafo e repórter. Casou-se em 1957 com Lucy Barreto, com quem produziu diversos sucessos das telonas. Esteve envolvido em obras como “O Assalto ao Trem Pagador”, filme clássico de Roberto Farias que coproduziu, sem falar em “Vidas Secas” e “Terra em Transe”, que fotografou.
Em 1963, fundou com a esposa a LCB Produções Cinematográficas, onde produziu obras fundamentais como “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, dirigido por Bruno Barreto, até então o maior sucesso do nosso Cinema em todos os tempos, com quase 11 milhões de espectadores, superando “Tubarão”, de Spielberg, no mesmo ano de lançamento em salas brasileiras. Produziu também “Inocência” (de Walter Lima Jr., “Bye Bye Brasil” (de Cacá Diegues) e “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos, “Índia, a Filha do Sol” e “O Quatrilho” (de Fábio Barreto), entre muitos outros títulos. Foi-se um grande nome, uma era fica para sempre.
CLÁSSICO – “A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE”, de Kieslowski
Irène Jacob é uma das atrizes mais belas do cinema francês. Dirigida pelo polonês Krystof Kieslowski, a francesa protagonizou dois longas, “A Fraternidade é Vermelha” (Red/Rouge), da Trilogia das Cores do cineasta e, dobrando papéis, “A Dupla Vida de Véronique”, de 1991. O filme está em algumas plataformas e retornou às salas brasileiras com cópia remasterizada em 4K para exibição em DCP (Digital Cinema Package). A obra, bem ao estilo do chamado “cinema de arte”, é falada em parte em polonês, idioma natal de Kieslowski, bem como em francês.
É uma trama que vai ao nível do detalhe. Literalmente. Tudo começa com Weronika, uma cantora de música de concerto, na Polônia. Sabemos algumas coisas sobre ela, que ela tem um namorado, tem uma tia que a aconselha vez por outra e, ao mesmo tempo, sabe coisas que a sobrinha vai descobrindo aos poucos. O momento chave do filme está no trailer. Weronika está em praça pública, há muita correria e ela avista uma moça idêntica a ela, que tira fotos com uma câmera. Sem dar spoiler, mas a outra moça, a francesa Véronique, que também lida com música, é quem o filme passa a acompanhar. Prestem a atenção aos detalhes.
A câmera de Kieslowski, a depender de qual protagonista ela acompanha, seja a Weronika polonesa ou a Véronique francesa, está de um lado ou de outro de espelhos e janelas envidraçadas. Outro item a se prestar a atenção é a música do polonês Zibgniew Preisner, compositor que acompanhou praticamente toda a filmografia de Kieslowski (como no caso dos dez filmes do “Decálogo”, para a TV polonesa) ou a Trilogia das Cores. A trilha sonora de Preisner, neste filme, é muito carismática e absolutamente fundamental para a trama das duas moças. Belo filme, filme de arte, bela atriz (Irène Jacob conduz o filme) e bela trilha.
SUCESSO – “O Convite”, terceiro longa de Olivia Wilde
Atriz bela e carismática, a americana Olivia Wilde migrou para trás das câmeras dois filmes atrás (“Fora de Série”, de 2019 e “Não Se Preocupe, Querida”, de 2022), além de um clipe musical para o Red Hot Chili Peppers (“Dark Necessities”) e um curta-metragem, “Wake Up”. Agora, a atriz-roteirista-diretora nos entrega “O Convite” (The Invite), uma deliciosa comédia dramática com um elenco de primeira: Penélope Cruz, Edward Norton, Seth Rogen e ela mesma, estraçalhando no papel de Angela.
Para começar, trata-se de uma adaptação de um roteiro do cineasta catalão Cesc Gay, que rodou o filme “Sentimental” em 2020. Um casal, Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) é apresentado já nos créditos iniciais. A gente ouve a canção “I’m Confessing (That I Love You)”, imortalizada na voz de Louis Armstrong, só que tocada ao piano, muito suavemente e de forma quase imperceptível. O casal chega em casa. Ele, um professor de música. Ela, dona de casa, prepara um jantar. Para esperar os vizinhos do andar de cima.
Esses vizinhos são Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), um casal um tanto desinibidos e tranquilos com situações no mínimo de vergonha alheia. O convite, a princípio do casal onde se passa a história – o aconchegante apartamento de Angela e Joe -, transforma-se em outro convite (melhor não dar spoiler aqui), que acaba virando outros dois convites, até o final. Verdade seja dita. Olivia Wilde conduz com maestria o seu brilhante elenco – destaque para ela mesma e Penélope, ambas estão adoráveis e muito engraçadas.
E a diretora conduz a plateia, que ri até não aguentar mais e, a partir de certo ponto, o silêncio toma conta dos espectadores. Não se é possível ouvir nem grilo. Um domínio maravilhoso da emoção da plateia. Edward Norton e Seth Rogen também têm seus momentos de brilho, fazendo um duelo de maridos com vidas sexuais completamente diferentes. Um show de direção de atores, uma estória de 1h47min que passa diante dos olhos e ouvidos sem que se sinta o tempo passar.
Claquete batida!
