70 ANOS DE “RASTROS DE ÓDIO”: ULISSES NO FAROESTE
Nos 70 anos de Rastros de Ódio, Ruy Jobim Neto revisita a obra-prima de John Ford e analisa o filme que redefiniu o western e permanece como uma das maiores realizações da história do cinema.

Por: Ruy Jobim Neto
Nos 70 anos de Rastros de Ódio, Ruy Jobim Neto revisita a obra-prima de John Ford e analisa o filme que redefiniu o western e permanece como uma das maiores realizações da história do cinema.
Reza uma lenda que o cineasta Steven Spielberg, toda vez que vai começar a rodar um novo longa-metragem, assiste na noite anterior a um mesmo clássico do cinema americano – “Rastros de Ódio” (ou “The Searchers”), filme dirigido por John Ford e lançado pela Warner em 1956. Vários cineastas em todo o mundo são fãs desse longa, como é o caso do norte-americano Martin Scorsese, que assistiu a ele no cinema, em sua juventude, em Nova York. E nunca mais parou de amá-lo.
Trata-se aqui de um filme maior, uma obra de arte, a obra-prima ou, como se diz em Latim, a “magnum opus” de John Ford, diretor que criou maravilhas da sétima arte como “O Homem Que Matou o Facínora”, “Depois do Vendaval”, “Paixão dos Fortes”, “Como Era Verde o Meu Vale”, “As Vinhas da Ira” e “No Tempo das Diligências”, entre mais de 140 filmes. “Rastros de Ódio” parece ser mais um deles, mas ultrapassa qualquer medida na filmografia do cineasta. Todo John Ford está ali.
John Ford começou a dirigir filmes em 1917, por acaso, substituindo o seu irmão Francis Ford, que estava doente numa ocasião, mas que já rodava suas histórias na época do cinema mudo, na Califórnia, nos primórdios do cinema. O cineasta mesmo se apresentava: “Meu nome é John Ford, eu faço westerns”. Os westerns – filmes de bangue-bangue ou de faroeste (termo que vem de “far west”, significando oeste longínquo) são aqueles filmes que tiveram sua fama com grandes astros como Tom Mix e tiveram até assessoria de heróis reais como o delegado Wyatt Earp.
Depois de lançar em 1939 o filme “Stagecoach” (No Tempo das Diligências) em que lançou John Wayne para o mundo, que na época já era um jovem astro de segunda linha que trabalhava em alguns filmes do gênero western, John Ford começava nova etapa em sua carreira. Foram mais de 20 filmes do diretor estrelados por Wayne, em vários gêneros, entre eles “Depois do Vendaval”, “Forte Apache”, “Rio Grande”, o espetacular “O Homem Que Matou o Facínora”, “She Wore a Yellow Ribbon” ou “Donovan’s Reef”. Os dois viraram amigos para toda a vida.
Mas foi em 1956, em “Rastros de Ódio”, com roteiro de Frank Nugent e coprodução de Merian C. Cooper (sócio de Ford, na Argosy Pictures e que esteve à frente da produção do primeiro “King Kong”, lá no remoto 1933), que John Ford e John Wayne chegaram ao topo da carreira. É a melhor interpretação do astro, em todos os tempos, que só foi ganhar um Oscar em 1971, com “Bravura Indômita” (True Grit), na pele do xerife Rooster Cogburn, sob a direção de Henry Hathaway. “Rastros de Ódio”, enquanto filme, vai além de tudo que ambos fizeram juntos, onde o trágico, o imenso e o sublime contam uma grande história sobre bravura e persistência.
A estória foi compilada em roteiro a partir do livro de Alan Le May, em torno de reportagens de jornais do século XIX, que narravam como meninas brancas eram levadas por indígenas do oeste americano para serem criadas em suas tribos. Como mulheres indígenas. Em “Rastros de Ódio”, há um personagem, Ethan Edwards (John Wayne) que devota sete anos de sua vida atrás de uma única pessoa, a sua sobrinha Debbie (interpretada, em idades diferentes, pelas irmãs Natalie e Lana Wood), passando por intempéries, invernos, verões e dissabores. Um filme sobre a família e a colagem de pedaços destruídos, uma estória de retorno. Um Ulisses para o faroeste. Ethan Edwards é esse Ulisses.
Sendo um filme de John Ford, há elementos em “Rastros de Ódio” que o cineasta foi pulverizando ao longo de sua enorme filmografia (de 1917 a 1968), todos eles presentes de forma muito bem urdida. Há alívios cômicos, romance, há drama, há música e danças, há tradições, há confrontos civilizatórios e há muita beleza. Os planos de enquadramento realizados pela equipe do grande diretor de fotografia Winton C. Hoch encantam pela composição de quadro, as “noites americanas” (a técnica do chamado “day for night” de filmar a noite subexpondo as cenas rodadas de dia, com sol), o planejamento, as transições de cena, as fusões, as imagens em VistaVision captadas pelas câmeras Mitchell, tudo entrega um filme de uma fluência inabalável, embalado pela ternura e pelo drama da trilha sonora magistral de Max Steiner.
Filmado em pleno Monument Valley (cenário predileto de John Ford, que fica na fronteira dos estados americanos de Utah e Arizona), “Rastros de Ódio” na realidade se passa no Texas, a partir de 1868 (portanto três anos depois do encerramento da Guerra Civil Americana). A verdade é que a montagem entrega um filme em que o público percebe a passagem do tempo e do espaço sem que saibamos exatamente onde e quando se dão essas duas extensões. Essa é a magia do cinema. Numa estória que se passa por seis ou sete anos, o filme funciona.
O elenco não fica por menos. Encabeçado por John Wayne na melhor interpretação de sua carreira – a de um homem amargo, duro, apaixonado, repleto de frases de efeito engraçadas, inquebrantável e ao mesmo tempo com traços racistas contra indígenas, traços complexos, exibindo um cardápio de sensações -, “Rastros de Ódio” tem Jeffrey Hunter no papel de seu meio-sobrinho Martin Pawley, objeto do amor de Laurie Jorgensen (a belíssima e divertida Vera Miles), ele que também vai atrás da sua prima Debbie (Natalie Wood, aos 18 anos de idade).
Ward Bond que, por sua vez, interpreta o mandão e divertido Capitão Reverendo Samuel Johnson Clayton, é um dos atores do elenco familiar de John Ford, como John Qualen (intérprete de Lars Jorgensen, pai de Laurie e Brad) e Hank Worden (na pele de Mose Harper, o sujeito da cadeira de balanço). Ward Bond protagonizou dois longas de Ford, “Wagon Master” (de 1950) e “Tobacco Road”, em que contracena com a lindíssima Gene Tierney (de “Laura”). Para completar o elenco central, mãe e filho, na vida real, Olive Carey e Harry Carey Jr. (nos papeis da sra. Jorgensen e seu filho Brad, apaixonado por Lucy Edwards, interpretada por Pippa Scott).
Há muito por se falar a respeito de “Rastros de Ódio”, como por exemplo a paixão nutrida de Ethan Edwards por sua cunhada Martha (Dorothy Jordan), que é, na verdade, o motivo central de toda a vingança que o personagem de John Wayne empreende na gana de escalpelar o Chefe Scar (“Cicatriz”), que sequestrou as sobrinhas Debbie e Lucy. No final, tudo dá certo, sem dar spoilers aqui. O que permanece é a obra, repleta de detalhes deliciosos e belos. “Rastros de Ódio” já recebeu ensaios, resenhas, palestras de muita gente ao longo dessas décadas todas, na verdade, exatos 70 anos de uma saga de dois homens atrás de uma desaparecida. Aliás, é exatamente esse o título do filme em Portugal: “A Desaparecida”.
Claquete batida!
